• I Mostra de Design e Audiovisual das Universidades Federais

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A universidade pública brasileira é atravessada por disputas históricas em torno de seu papel social. Como apontam Assumpção et al. (2016), ela carrega tensões entre uma lógica tradicional — elitista, tecnocrática, centrada em saberes hegemônicos — e pressões por democratização, diversidade epistêmica e compromisso com a transformação social. Essa configuração paradoxal, longe de ser resolvida, se radicaliza no presente, especialmente quando os conflitos internos encontram ressonância em um ecossistema comunicacional marcado por fake news, algoritmos tendenciosos e ataques organizados por grupos políticos que unem conservadorismo religioso com propagação de desinformação.

Como apontam Parra e Moraes (2025), a realidade é marcada hoje por uma ambiência tecnossocial modulada por dispositivos digitais que classificam, regulam e capturam. As mídias sociais — hoje centrais nas estratégias de comunicação das instituições — não apenas distribuem conteúdo: elas moldam a forma como os sujeitos percebem, respondem e interagem. A subjetivação se realiza, nesses espaços, como performance contínua de visibilidade e responsividade, regulada por padrões invisíveis que determinam o que é visto, o que é ignorado, o que é “digno” de circular.

Em meio a esse cenário, a comunicação institucional das universidades públicas é convocada a operar numa zona de fronteira: precisa compreender criticamente os dispositivos que organizam a circulação de sentidos e, ao mesmo tempo, agir neles — muitas vezes utilizando os próprios meios que a colocam sob risco. O que está em jogo não é apenas a produção de conteúdo, mas uma disputa econômica e social. Comunicar a universidade, hoje, implica resistir às lógicas que tentam reduzí- la e desacreditá-la, exigindo sensibilidade estética, pensamento crítico e capacidade de criar fissuras nos modos hegemônicos de produção da verdade. 

As imagens, os vídeos, os cartazes, os posts, as vinhetas, as publicações em geral — tudo comunica. Tudo é campo de batalha simbólica. E justamente por isso, o design e o audiovisual ocupam lugar central nessa disputa. Porque são essas linguagens que têm o poder de traduzir, emocionar, tensionar, inspirar. De devolver à universidade sua densidade humana. De mostrar que ela é feita de corpos, vozes, sons, culturas, ausências, presenças — e futuros. 

A I Mostra de Design e Audiovisual das Universidades Federais nasce nesse entrelugar: entre o enfrentamento e a criação. Ela propõe um espaço de partilha e reconhecimento, mas também de reflexão sobre o que temos feito e sobre o que ainda podemos construir. Ao reunir produções de todas as regiões do país, a Mostra lança luz sobre a pluralidade estética e cultural que atravessa as universidades. Esses trabalhos carregam marcas da brasilidade em sua forma mais viva: múltiplos sotaques visuais e sonoros, diferentes experimentações gráficas. Tudo isso em um cenário de equipes reduzidas e muita urgência cotidiana.

Valorizar estas produções é reconhecer que, mesmo sob condições adversas, fazemos comunicação pública com densidade, com beleza e com compromisso. E que esse gesto também é político. Ao nos reunirmos nesta Mostra, buscamos inspiração mútua e um horizonte estético-político que nos ajude a imaginar, juntos/as, outras formas de ver, ouvir e comunicar o que a universidade pública é — e, sobretudo, o que ela pode ser.

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Ficha técnica

Idealização e organização: Kamila Fernandes (UFC) e Fabrício Gobetti Leonardi (UNIFESP)

Organização da mostra virtual no Museu Digital UNILA: Laura Quintano Castro (Secom/UNILA) e Michele Dacas (UNILA)

Produção da Mostra Física: Fabia Lima (UFMG)

Referências

ASSUMPÇÃO, Raiane Patrícia Severino; et. al.. Educação popular na universidade – uma construção a partir das contradições, reflexões e vivências a partir do PET Educação Popular da Unifesp-Baixada Santista. Revista e-Curriculum, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 437–462, abr./jun. 2016. Disponível em: http://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum. Acesso em: 27 jul. 2025.

PARRA, Henrique Zoqui Martins; MORAES, Alana de Souza. Apresentação do dossiê – Hegemonia cibernética, tecnoextrativismo e colonialidade: considerações sobre o Tecnoceno. Mediações, Londrina, v. 29, n. 2, p. 1–14, maio/ago. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5433/2176-6665.2024v29n2e51043. Acesso em: 30 jul. 2025